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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Padaria Autor(a): Paulo Lorenz - Conheça esse autor
História publicada em 30/08/2010
As padarias em São Paulo sempre me encantaram. Lembro-me pequeno saindo do prédio onde nasci em Pinheiros e indo com a minha mãe comprar o pão fresquinho para o lanche. A conta, quase sempre, incluía aquele pãozinho a mais que através do seu cheiro hipnotizante e troca de calor com as mãos, já se sabe que não chegará em casa.

O que era para ser apenas padaria, a cidade acabou transformando em muito além. A padaria tornou-se um ícone dentro do cotidiano do paulistano a tal ponto que vinculou sua imagem à metrópole. Dentro destes estabelecimentos, passa um sem fim de pessoas e histórias, conversas descompromissadas, provocações futebolísticas, lamentações, e até roda de samba.

Entrei naquele fim de tarde na padaria próxima à minha casa, como em quase todos os fins de tarde. Sentei-me praticamente no mesmo lugar onde tomo todos os dias pela manhã um café com leite pequeno e um pão na chapa. Não que isso seja uma mania ou superstição, pode até parecer, mas apenas acho aquele lugar estratégico. Observo as manobras do chapeiro, os movimentos coordenados dos balconistas, vêem o meu cachorro que está do lado de fora e tenho as coxinhas e salgados bem perto. Perto a ponto de ser possível perceber aquele salgado que foi preparado há mais tempo, pela absorção do papel que o contém. O chapeiro, num gesto automático ao me ver, começa a cortar o pão e passar manteiga. Ao final, por cortesia, ele sempre inclui um mini-pão de queijo, garantindo sua gorjeta. O balconista me pergunta:
- O de sempre?

A televisão segue mostrando o noticiário sensacionalista e superficial dos fins de tarde. Pessoas entram e saem. Um se senta no balcão, faz qualquer gesto para o balconista que entende e traz uma dose de cachaça. O cliente, com aquela cara de quem passou por um longo e cansativo expediente, emenda:
- Espreme um limão!

Dois homens simples entram, sentam-se no balcão. Trazem no rosto e na expressão as marcas de como a cidade pode ser cruel com quem não tem chance ou sorte. O mais jovem é bem claro em seu pedido ao balconista:
-Uma cerveja, por favor. A mais barata que você tiver. E dois copos.

Enquanto como meu pão, vez ou outra reparo na tristeza estampada nos rostos dos sujeitos. Principalmente do mais novo. O mais velho parece calejado. Apenas toma sua cerveja, como se aquilo fosse a coisa mais importante na sua vida, ou talvez a única. O que sobrou. Pouco se falam. O outro que havia pedido a cachaça, já se levantou e foi embora. Imagino como ele se sairia contra um bafômetro naquela hora. O senhor que toma cerveja, olha para a barra de salgados. Apenas olha. Não pede. Não pode? Não tem.

O hábito de frequentar padarias eu adquiri quando morei em Higienópolis, um bairro tão caótico quanto funcional. O Souza já me servia sem perguntar nada. Ao trazer aquele belo pão chapado e o café com leite espumante, era regra reclamar que acordou às cinco da manhã, que pegou três conduções, e que o filho estava doente. Na sequencia, me oferecia o jornal do dia. Às vezes, só com a página de esportes, que era a que realmente interessava. De trás do seu avental surrado, o chapeiro soltava uma frase, tipo:
- Seu time entregou mais uma hein doutor...
Uma meia dúzia de palavras lhes eram sempre retribuídas na mesma moeda:
- É, mas é o seu time que vai cair...

Dava a impressão que aquilo fazia parte de um ritual: entrar, sentar-se ao balcão, cumprimentar o dono bigodudo, o jornal, as lamúrias, as provocações. Quando mudei de bairro, percebi que a padaria já se tornara para mim uma instituição.

As padarias pela cidade podem ser mais ou menos equipadas, com maior variedade de produtos, mais bem instaladas, mais caras, mas uma coisa é certa: pra se medir a qualidade do estabelecimento, nada melhor do que um pão na chapa e um café com leite. Não tem erro. No copo americano ou na xícara, com muita manteiga, prensado, natural, na canoa. Na sequencia, o jornal. Se o chapeiro não provocar, provoque. E os milhares de Souzas atrás dos balcões estarão sempre atentos ao movimento do freguês habitual:
- Até amanhã, doutor, se Deus quiser!

E-mail: paulo.lorenz@gmail.com E-mail: paulo.lorenz@gmail.com
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Publicado em 06/10/2010 Parabens pela selecao e publicacao ! Essa pessoa ja escreveu algumas historias e essa deve ser pelo menos a terceira que leio do autor !Paulo, vc escreve bem demais meu rapaz !! Enviado por Alessandra Funcia - alessandrafuncia@gmail.com
Publicado em 04/09/2010 Paulo: Texto maravilhoso! Concordo com você! Padaria é instituição e sagrada! Pedaço de mundo onde tudo acontece. Antes de ler o seu texto eu já havia combinado com a minha família: amanhã cedo, véspera de feriado, vamos a uma cidade da grande Florianópolis - Santo Amaro da Imperatriz, tomar café na padaria central. Parabéns. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 01/09/2010 Maravilhoso Paulo!!! Uma homenagem às padarias da vida de cada um de nós. Com certeza, todos temos lembranças das padarias de nossa infância. Pudim de padaria, a famosa "bengala", pão francês, pão na chapa, pingado, etc... Quantas vezes "matamos a fome" rapidamente dessa forma pois não tínhamos tempo ou dinheiro para uma refeição completa em algum lugar desta cidade? Parabéns, foi um dos mais belos sobre um tema que toca a todos! Enviado por Consolata Panhozzi - tpanhozzi@ig.com.br
Publicado em 31/08/2010 Quando o pão é bem feito, sem bromato, ele é gostoso até sem nada. Pra mim, pelo menos. Com qualidade, a padaria se torna indispensável a nossa existência. Parabéns, Lorenz.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 31/08/2010 Pois é isso aí, Paulo
E me lembro que eu pedia um pão na graxa e um pingado.
Coisas da padaria e do folclore paulistano.
Parabéns. belo texto.
Enviado por Alvaro Glerean - alvarogle@terra.com.br
Publicado em 30/08/2010 Paulo, padaria é uma deliciosa mania paulistana. E se nela tiver um observador como você, é uma fonte de histórias e aprendizado. Parabéns pelo texto. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 30/08/2010 PAULO, TAMBEM ESCREVI UM TEXTO A PADARIA, PÂO DIVINO, ONDE EU PASSEI A MINHA MOCIDADE, E FAZIA O MELHOR SANDUICHE DO MUNDO, CHAMAVA-SE O INFELIZ NA CHAPA, ERA DE MORTADELA CORTADA BEM FINA, COM
MOLHO VINAGRETE,PAÔZINHO ,TAMBEM NA CHAPA.
LINDOS TEMPOS.
Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 30/08/2010 Realmente Lorenz, as padarias são as praias dos paulistanos. Já estão inseridas aos nossos hábitos e costumes. Enviado por AchillesGermano Viadana - achilles_germano@hotmail.com
Publicado em 30/08/2010 Lorenz, nada como um "pingado" bem clarinho junto com um pão-doce bem macio, parabéns pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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