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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas A Rua das Violetas, a meninada e as luzes de mercúrio! Autor(a): Zeca Turnês - Conheça esse autor
História publicada em 16/08/2010
Acabei de me deparar com uma foto em preto e branco da Rua Loefgreen (Vila Mariana) em 76, aqui no site. Uma foto absolutamente banal e até monótona, mas com um detalhe que me trouxe um flash de memória de fatos acontecidos por volta de 1972 ou 73, na Rua das Violetas, onde eu morava na época. Na tal foto vê-se apenas uma ladeira, um fusquinha 1300 e um Opala estacionados na rua. Uma árvore com folhas secas à esquerda e, finalmente, o tal detalhe que prendeu minha atencão.

Foi como rever um velho conhecido, por assim dizer. Trata-se simplesmente de um poste de luz com uma poderosa lâmpada de mercúrio!
PAUSA: não sou louco nem fissurado por objetos inanimados, fiquem tranquilos e continuem a leitura, por favor. FIM DA PAUSA!
Explico: Para os mais jovens, nada de interessante num poste de iluminação pública, concordo. Contudo, para mim, aquele objeto metálico de forma geométrica que contém a lâmpada de mercúrio no seu interior trouxe-me uma recordação de acontecimentos que aqui vou tentar descrever.

Por volta de 72 mudei-me para a Rua das Violetas. Tinha 11 anos e havia morado anteriormente na Rua Guapuã. Naquela época, somente as avenidas principais de Mirandópolis e Vila Mariana estavam recebendo (ou já tinham) um novo tipo de lâmpada para os postes: eram as modernas e poderosas luzes de mercúrio. A Rua das Violetas, Guapuã e muitas outras ainda usavam as antigas luzes incandecentes para iluminação pública.

Os fatos que vou contar aconteceram por volta de 73. Toda a molecada do bairro (inclusive eu, claro), passava grande parte de suas horas livres brincando na rua. Porém, a luz fraquinha dos postes não ajudava em nada nas brincadeiras noturnas. Só havia luz suficiente perto do poste, o resto era uma penumbra, por assim dizer. Num belo dia, começaram a aparecer uns homens da Light (a antiga companhia elétrica da cidade). Eles vinham com uns dois caminhões carregados de uns tubos cumpridos e uns carros menores também. A molecada ficou curiosa para saber o que eles iriam fazer...

Começaram a descarregar o material todo e a colocar escadas nos postes. Também traziam umas abóbodas metálicas em formato geométrico, com lentes de vidro bem grosso. Nesse momento, matamos a charada! Finalmente nossa rua teria as novas “Luzes de Mercúrio”! Achávamos que eles fariam o serviço todo naquele dia mesmo e as lâmpadas seriam ligadas naquela noite. Estávamos pulando de alegria, seria o fim pra sempre da “luz-de-penumbra”!
A rua toda devia ter uns oito postes no total. Os homens da Light começaram a instalar os tais tubos (ou braços de suporte) em cada poste e em seguida aquela caixa metálica era presa na ponta do tubo.
Para a tristeza geral, aquele trabalho inicial durou uns dois dias. Mas eles deixaram as caixas vazias, sem lâmpadas. Também já haviam feito as ligacões elétricas apropriadas, mas mantiveram as antigas lâmpadas ainda ligadas e funcionando.

Resumo: Durante umas 4 ou 6 semanas ainda tivemos que nos contentar com o sistema antigo de iluminação. Chegou um ponto em que achávamos que eles haviam se esquecido de vir para finalizar o trabalho ou desistido de implantar a nova iluminação na nossa ruazinha. Estávamos enganados, ainda bem! Num belo dia, sem que ninguém esperasse, eles voltaram e começaram finalmente a instalar as lâmpadas novas dentro das caixas metálicas, em cada poste, ao mesmo tempo em que removiam os antigos suportes, fiação e lâmpadas incandescentes. Ao final do segundo dia, tudo estava prontinho.

A molecada curiosa, como sempre, não perdia uma chance para fazer uma pergunta aos operários. Ficamos sabendo que tudo estava “ok” e pronto para funcionar. Além das novas lâmpadas e suportes, eles também instalaram novos sensores fotoelétricos nos postes. Finalmente havia chegado a nossa vez para desfrutar do progresso tecnológico! Terminaram o serviço no meio da tarde e nos disseram que naquela noite mesmo o novo sistema entraria em ação. Foi um dia especial para todos os moradores da rua e, em especial, para a garotada, que ficou literalmente de guarda, sentada na calçada, até o cair da tarde, para confirmar se realmente tudo iria funcionar conforme prometido!

O sol foi se escondendo, mas como era verão, demorou um pouco até que começasse a escurecer. A meninada toda impaciente, quando de repente alguém dá um grito dizendo mais ou menos assim: - “olha lá, acendeu a luz no primeiro poste!” Naquele momento, as luzes foram acendendo uma a uma e a molecada foi ao delírio! Lembro-me que fui correndo até em casa para chamar minha mãe para que ela também pudesse ser mais uma testemunha ocular de um fato histórico!!!

De fato, fazia uma diferença bem grande. As novas luzes eram bem mais poderosas e a luz branca se espalhava deixando a rua bem mais clara. Naquela noite especial, ficamos até mais tarde na rua, brincando e correndo. Era uma alegria geral! Agora poderíamos jogar queimada, pega-pega e esconde-esconde sem aquela escuridão típica das antigas lâmpadas incandescentes. Naqueles meses subsequentes todas as ruas de Mirandópolis tiveram a iluminação de mercúrio instalada.

Alguns anos depois, mal me lembrava mais das antigas luzes e seus suportes em estilo antigo. Todos esses acontecimentos que descrevi passaram-se há mais de trinta e cinco anos. E eu nem fazia ideia que isso tudo ainda estava guardado na minha memória. Foi só ver aquela antiga foto e tudo isso voltou à tona e me senti obrigado a contar essa historinha para vocês e deixar esses pequenos fatos registrados para as futuras gerações. São Paulo e Mirandópolis moram em meu coração, apesar do tempo e da distância (hoje vivo fora do Brasil, mas minhas lembranças da infância, guardo com muito carinho). Saudades de um tempo tranquilo e maravilhoso.

e-mail do autor: mailto:cmfm74@gmail.com
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Publicado em 15/12/2010 Nasci no paraíso, rodei, rodei e vim parar sabe aonde?? Na R. Guapuã!!!!! Se acho fantástico agora, imagino na época em que vc morou aqui! Ainda é de paralelepípedo a ruazinha, que tem como tradução, do Tupi, "Pouso Alto", então não alaga, por estes dois atributos! Abraços Enviado por Maicira Trevisan - maiciratrevisan@gmail.com
Publicado em 17/08/2010 EU SEMPRE DIGO AS LEMBRANÇAS SÂO COMO AS FOTOGRAFIAS, SO GUARDAMOS AS MELHORES. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 16/08/2010 Que delícia de lembrança que vem demonstrar como era fácil ser feliz naqueles tempos. E, o sr. escrevendo desde outro país e acompanhando este site maravilhoso – prova – também que todos fazemos parte dessa grande aldeia global. Parabéns pelo texto e por manter viva essa chama que se chama saudade. Abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
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