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Categoria - Paisagens e lugares Heliópolis Autor(a): Ruy Asano - Conheça esse autor
História publicada em 30/11/2009
No início de setembro deste ano de 2009, assisti a uma reportagem na TV mostrando o caso de uma adolescente que havia sido atingida por uma bala perdida durante um confronto entre policiais e ladrões na favela "Heliópolis". Ana Cristina, de 17 anos, mãe de uma menina, tinha sido ferida mortalmente. Devido às circunstâncias, o caso gerou uma grande revolta popular, ruas foram bloqueadas com pneus e veículos incendiados.

No início de 1985 fui morar no interior de Minas Gerais e, desde então, raramente tenho visitado São Paulo, minha cidade natal, mas, o episódio acima me trouxe velhas recordações daquele pedaço da cidade. Vi, na reportagem, um ônibus incendiado ao lado da Igreja Sta. Edwiges. Em frente à igreja há uma bifurcação formada pela Estrada das Lágrimas e uma rua que dá acesso ao bairro Alencar de Araripe, transformando-se em uma espécie de praça.

Em idos dos anos 60, nesta "praça" havia uma bica d'água onde muitas pessoas tinham o costume de buscar água e, do outro lado havia uma casa que em sua garagem, tinha um raríssimo automóvel "Isotta Fraschini" cujo feliz proprietário era um conhecido veterinário da região. A menos de 200 metros da referida bica, fica a "Árvore das Lágrimas", local onde, antigamente, amigos e familiares se despediam das pessoas que seguiam viagem ao litoral.

Na época eu fui morar no Jardim Patente, sub-distrito do Ipiranga.
Antigamente havia neste local o Haras Patente, de propriedade do empresário Luigi Liscio, 1884-1974, que também era dono da Fábrica de Camas Patente, localizada no Bairro do Bom Retiro. As pessoas com mais de 60 anos certamente se lembrarão destas resistentes camas, ao assistirem certas novelas de "época". Dos anos quarenta e cinquenta.

Para ir ao serviço, que ficava na Av. Pres. Wilson, entre os bairros do Ipiranga e Mooca, eu saía do Jd. Patente e seguia pela Estrada das Lágrimas e, exatamente na altura da Igreja Sta. Edwiges, dobrava à direita até a Almirante Delamare. Alcançando um pouco mais à frente a Presidente Wilson. Certa manhã, em meados de 1982, fazendo esse percurso, reparei que algumas pessoas estavam demarcando aqueles terrenos, com pedaços de pau e barbantes.

No dia seguinte pude constatar que alguns já haviam iniciado a construção dos primeiros barracos!!! A região é enorme vai do Sacomã até o Rio dos Meninos que faz a divisa do Município de São Caetano do Sul com São Paulo. É delimitada à esquerda pela Av. Almirante Delamare, e à direita pela Estrada das Lágrimas. Diz à lenda que a área pertenceria a uma viúva, herdeira descendente de uma tradicional família.

Por outro lado o Governo também reivindicava a posse daquelas terras. A "briga" já se estendia há décadas. E, enquanto não se resolvia na Justiça a quem de fato e de direito pertencia àquela imensa área, o povo a invadiu. Um ou dois anos antes da ocupação, o Governo havia concluído a construção do Hospital Heliópolis.
Confesso que fiquei um pouco decepcionado..., pois sempre que passava ao longo da Estrada das Lágrimas eu ficava admirando aquela bonita faixa de verde com campos de futebol. Acho que muitos jovens de classe média, que residiam nos bairros vizinhos, sonhavam em comprar um terreno e construir um lar bem alí..., pois o lugar prometia!


E-mail do autor: ruyasano@hotmail.com E-mail: ruyasano@hotmail.com
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Publicado em 11/08/2011 adorei! a história muito interessante.. Enviado por leticia ferreira da silva - leticia.black_11@hotmail.com
Publicado em 17/02/2010 Olá, Ruy! A rua que bifurca com a Estrada das Lágrimas, onde fica a Igreja de Sta. Edwiges chama-se "Marechal Pimentel". Morei nela durante a minha infância e adolescência, a uma quadra da igreja. Bebi muita água daquela bica! Nessa época, chamávamos de Heliópolis, somente a ponta do morro, onde havia diversas casas construídas, muito bonitas, em estilo inglês com tijolos à vista. O resto, chamava-se Morro do Penteado. Era onde começavam todos aqueles campos de futebol, que iam até São João Clímaco. A tal viúva que você citou, deve ser a Baronesa Penteado. Enviado por Dalton - dalton-abreu@uol.com.br
Publicado em 04/12/2009 Ruy, parabéns pela história, seu texto e os comentários do J. Grassi, me fizeram lembrar dessa antiga cama de estrado de arame com molas, e estrutura de peróba roliça, realmenter era forte, que meus pais tinham, e o colchão era de capim,crina, só esse site para reviver essas coisas,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 01/12/2009 A cama patente faixa azul foi a primeira que ganhei de meu pai, em 1942. O fato que me chamou a atenção, que depois de 12 anos de uso, foi chamado um funcionário para o conserto do estrado, que era trançado com arame e rodeado de pequenas molas. Após o conserto, meu pai perguntou quanto era o serviço, e o homem arrumado as ferramentas na maleta, disse simplesmente: Não é nada. Ela ainda está na garantia. Existe isso hoje em dia? Abraço Grassi Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br.
Publicado em 01/12/2009 Narrativa bem extruturada, locais que despertaram saudosas recordações. Muito boa sua memória, Ruy, parabéns.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 01/12/2009 Ruy, morei durante muitos anos no Ipiranga e também acompanhei essas mudanças naquela região. Infelizmente o progresso e o descaso com as camadas sociais mais baixas de nossa cidade provocaram alterações terríveis em nossa paisagem e nosso modo de vida. É uma pena o preço que todos pagamos por isso. Parabéns pelo seu texto e pelas lembranças. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 30/11/2009 Sr.Asano, um belo relato da região onde muitos passavam em direção a São Caetano do Sul. As favelas são explosões sociais incontroláveis alimentadas pela carestia e a falta de esperança. Ficar parado e rezando não resolve o problema de habitação, então sobrevém as invasões. Abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 30/11/2009 Ruy, parabéns pelo seu relato, eu como morador antigo do Ipiranga me lembro muito bem dos locais citados pelo amigo, apenas para lembrar lá em cima também ficava o Frigorífico Ceratti e, ao lado esquerdo da Av. Delamare ficava o campo de futebol do União Mútua da Vila Carioca, infelizmente tudo passou, um abraço, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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