Leia as Histórias

Categoria - Personagens Um Conto,... Un Cuento! Autor(a): Rubens Ramon Romero - Conheça esse autor
História publicada em 09/11/2009
As lembranças vinham à tona. Recordava-se enquanto jazia em coma no hospital beneficente. Junto dos pedidos choros, dores, orações e mágoas, ele recordava o pretérito com saudade da infância, mesmo de passagens desagradáveis.

Na sua chegada da península Ibérica, a avidez do pai que tanto sonhara com aquele momento, ao passar noites de solidão, dias de inverno a mover a pesada carriola cheia de frutas e legumes para vender, resgatar a família e trazê-la ao Brasil.

O navio no porto de Santos, a alegria da concessão consular da viagem, e ele ainda menino, com a cabeça disposta ao centro da bóia salva-vidas, dándonos en el pañuelo, brincava o tio que o fizera conhecer o futebol.

Tornara-se corintiano rapidamente ao assistir o jogo em plena domingueira no Pacaembu, ele que o conhecera pelas tardes de domingo na TV Record. Perplexo ficara ao perceber os jogadores em campo, exclamou:
- Ellos son hombres de carne, ellos no son muñecos, ainda a utilizar os vocábulos hispânicos.

O tio responsabilizara-se por sua volta, diariamente, do parque infantil, deixando-o em casa são e salvo dos poucos perigos que havia. Um dia olvidou, e foi advertido pelos pais, o menino sem chorar amargara o frio do portão da escola até tarde da noite. Com a falha, aumentaram as obrigações, o tio teve que delatá-lo à mãe quando pretendeu, no caminho de volta, pular o muro da "casa assombrada" para furtar goiaba. A inocência, ante a advertência da mãe, foi fatal:

- Ah, eu sou ladrão, não roubei as ferramentas da loja?
Já falando português, levou a surra em espanhol:
- Baboso! Baboso! - gritava a mãe, a cada tapa dado. Estendeu a surra aos outros filhos, pois necessitava aproveitar o exaspero.

As lembranças fluíam com a espiral do tempo, levando-o ao passado distante. O medo veio à memória, no tempo escondido ficara a pedra arremessada na cabeça do primo amigo. Recordou-se como se fosse agora.

O garoto do outro lado da rua coberto por pilha de tijolos dissimulava. Colocava a cabeça à tona provocando que o acertasse. No arremesso do caco de telha abaixava rapidamente a cabeça e soltava sonoras gargalhadas, a desafiar o primo maior que, num gesto de lucidez, segurou dois fragmentos de telha e arremessou o primeiro. Na subida da cabeça o menino ibérico recebeu o segundo na testa, caiu estatelado sem tempo de zombar com o riso.

Pálido e inquieto, o primo mais velho disparou a correr, sem encontrar um lugar oculto lugar. O mecânico dono dos tijolos dispostos o induziu ao medo, exagerou o acidente:

- O teu primo esta caído, com a cabeça aberta, todo ensangüentado.
No regresso a sua casa, no final da noite, sem poder adiar o retorno, aguardou a surra com o terror retratado no rosto. Para sua surpresa, a mãe o mandou lavar-se para jantar. O mecânico mentira, os efeitos da pancada não foram tantos, e o primo amigo ocultara o segredo, planejando o revide.

Sofrera o revés da doença maligna e salvara-se como por um sopro divino, mas, agora, o retorno do sofrer pelos desencontros do amor, que antecederam essa dor. Utilizaria o salva-vidas da chegada para se preservar do dano?

Não deu, se rompera, partira junto com a consciência viva, junto dos seus, na certeza de ter passado pela existência amando-os e respeitando-os todos os dias da sua vida!



E-mail do autor: rrubensrr@bol.com.br
E-mail: rrubensrr@bol.com.br
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 11/11/2009 Sr.Romero, a infância movimentada com as mil e uma artes, mas com os castigos e a mão pesada da madrecita. Momentos de terror pelo acidente gravíssimo, sei o que é isso; só quem passou por algo similar pode dizer. Traz sombras e culpas por toda a existência. Criança é muito boba e sugestionável. Aqueles que se acham mais espertos fazem "gato e sapato" dos pequenos. Haverá revide! Grande abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 11/11/2009 Rubens, enquanto lia seu texto, lembrei-me de uma historia que meu nono contava: Havia uma familia de espanhois aqui no Brasil, e o Pai queria que os filhos (brasileiros)tivessem dupla cidadania, e os levou para o consulado, quando fez o pedido para o consul, imediatamente ele pediu que os meninos ficassem de costas e abaixassem a calças,sem pestanejar aprovou o pedido, o Pai orgulhoso disse, mas que rápido! o consul disse "con las cuecas borradas, con certeza são espanholes". RSRSRSRS Enviado por FORTUNATO MONTONE - fortunapule@hotmail.com
Publicado em 11/11/2009 Muito bonito e bem relatado. Lembranças. São tantas. Mas algumas marcam mais. Abração Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 11/11/2009 Amigo Modesto, gratos pelos comentários.Este relato estava na gaveta há mais de 5 anos, quando meu primo estava na Santa Casa. Escrevia a medida que recebia noticias do hospital .Quanto a "tornara-se corintiano rapidamente" tens razão, mas foi impossível convencê-lo ao contrario, ele vinha da Espanha um dos paises mais católicos do mundo, e como “Deus é Fiel”,não houve outra escolha.(rsrs)Tentamos que fosse Palmeirense, um time patriota: É verde, usa azul, da branco e...amarela!(rsrs),não deu....
Abraço.
Rubens
Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 10/11/2009 Belo fragmento de sua infâncio, Triele, travessuras e castigos "a la spanhola". A pedrada na cabeça do primo e o alerta do mecânico, serviram de alerta pra não abusar do exgero nas brincadeiras. O descuido do "vuolito" é perfeitamente compreensível. A única falha nessa educação foi "tornara-se corinthiano rapidamente" mas, é desculpável, afinal, ninguém é totalmente perfeito. (rsrsrsr) Parabéns, Rubão.
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 10/11/2009 Ao trazer à tona este seu lado moleque, lúdico, seu narrar torna-se até poético. Deixe aflorar mais vezes esse seu lado menino, pois todos nós, cuja criação ibérica nos tornou fortes, de aço, guerreiros, temos força suficiente para encarar todo ou qualquer revés.Você, como corintiano, já está saindo no lucro,pois somos " os campeões dos campeões!" Que a luz de Jesus brilhe em todos os seus momentos, nos bons e ruins. Enviado por trini pantiga - trinesp@ig.com.br
« Anterior 1 Próxima »