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Categoria - Outras histórias Chutando tampinha no viaduto Autor(a): Pedro Galuchi - Conheça esse autor
História publicada em 04/11/2009

De repente, vejo a tampinha à minha frente e instintivamente chuto-a.
Fiquei feliz... Depois de tantos anos chutei uma tampinha de cerveja em pleno Viaduto Santa Ifigênia.

Segui a tampinha e chutei novamente, desta vez tentando acertá-la no meio dos trilhos dos bondes.
Enlouqueceu? Não há mais trilhos de bonde no viaduto.

Os bondes pararam de circular, mas os trilhos continuam lá, estão sob as pastilhas do calçamento, eu sei. Se não estiverem, faço de conta.
Puxei pela memória e me lembrei de haver chutado muita tampinha na infância. E andado de bonde.

Nem uma coisa nem outra no viaduto Santa Ifigênia.
Enquanto corria atrás da tampinha, matutei porque tanta euforia em chutar uma tampinha num sábado à tarde. Serão os primeiros sinais de senilidade? Será porque sempre me pareceu impossível chutar tampinhas ali?

Quando era criança, não podia fazê-lo porque havia os bondes, carros e muita gente passando.
Depois que os bondes saíram, em 1968, vieram os ônibus. Saíram os ônibus e vieram os ambulantes.

Nessa época, bem mais recente, não ficaria bem, eu, um adulto, chutar tampinhas no viaduto ou em qualquer outro lugar. Com advento das latinhas, o adeus definitivo ao sonho que eu nem lembrava mais.

Parecia arte do destino, não chutaria tampinhas no viaduto.
Corro atrás da tampinha que seguiu retinha pelo caminho do trilho.
Chuto outra vez, corro de novo atrás dela.

De relance, percebo que as raras pessoas que passam sobre o viaduto, num final de tarde de um sábado, estão me olhando de "rabo de olho".
Olham, mas seguem seu rumo, Nem ligam.
Com tanto maluco à solta, que há de mais em chutar-se uma tampinha em cima do viaduto.

Chutei mais uma vez e tenho a idéia brilhante de fazer embaixada com a tampinha. Tento uma, duas, três, nem sei quantas vezes fazer com que a tampinha saia do chão. Consigo e chuto a tampinha para o alto.

Ela passou pelo beiral do viaduto e caiu lá embaixo na avenida, num instante me lembro porque eu sentia tanto mistério no viaduto. Muita gente voou daquele viaduto como a tampinha. Aproximei-me do beiral e olhei para baixo vasculhando o asfalto, não vi mais a tampinha no meio do tráfego. Se a visse acho que descia para buscar e guardava de recordação do instante da infância revivida, depois de tanto tempo.


E-mail do autor: plugal01@gmail.com

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Publicado em 28/11/2009 lindo seu relato. Como me lembro do viaduto Sta Efigenia da minha adolescencia.Qdo. passo por lá tambem me lembro de tudo que vc se lembrou. que saudades hein! Enviado por rosa gouvêa - flordepaineira@hotmail.com
Publicado em 07/11/2009 Sr.Galuchi.No início da década de 70 também percorría de ponta a ponta o centro da cidade, veloz, prá dá conta do trabalho de Office Girl. Lendo seu texto, tive muita vontade de chutar umas tampinhas,também. Calmamente, sem pressa, mesmo porque a agilidade já não é a mesma. Belo relato. Alaíde Enviado por Alaíde Santos - silvasantos1955@bol.com.br
Publicado em 05/11/2009 A esquecida arte de chutar tampinhas...parabéns, Galuchi, por reviver tal costume e pela bela crônica. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 05/11/2009 Pedro que delicia de texto. Retornei ´no tempo e me vi, office boy, atravessando o viaduto em busca do prédio do INPS, ou descendo as escadas laterais, para ir à Recebedoria Federal ou aos Correios.
Essa tampinha me levou a recordar tudo isso. Quando ela caiu lá de cima, lembrei também que vi alguns viventes despencarem tambem, em gestos desalentadores, e se arrebentarem no solo, mas isso é triste e não merece ser lembrado.
Obrigado pela viagem!
Enviado por Miguel - misagaxa@terra;com.br
Publicado em 05/11/2009 Um dia eu chutei uma tampinha do refrigerante Sissi Jovem Guarda. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 05/11/2009 Sr.Galuchi, encontro insólito no viaduto, ele e a tampinha. A tampinha e ele. Inflou o peito de ar e correu para a gorduchinha, ou chapinha ou tampinha. Levantou-a, fez embaixadinha uma, duas dez vezes. Matou-a no peito e detonou um tirombaço que "caiu" na linha de fundo, na avenida abaixo. Ela está lá esperando para cobrar o tiro escanteado...Parabéns pelo texto. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 04/11/2009 GALUCHI, SE VC. ESCOLHESSE UMA LATINHA DE CERVEJA VAZIA EM VEZ DA TAMPINHA, HAVERIA UMA ATENUANTE MAS, ESCOLHESTE UM OBJETO EM VIAS DE EXTINÇÃO, ENTÃO, MEU CARO, SEU CASO É MAIS GRAVE DO QUE O DO TANGERINUS, QUE ANDOU DESCALÇO NA AV. PAULISTA. VCS. PRECISAM SE BENZER...
PARABÉNS PELO VIRTUAL RELATO (DESCULPE A BRINCADEIRA)
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 04/11/2009 Pedro. Entendo muito bem. Os meus setenta e tres anos acabam de chutar uma latinha de cerveja abandonada na calçada da rua Ribeiro do Vale, num raro momento de sossego total. Ninguém na rua, nenhum carro passando, e a latinha pedindo chute! Enviado por Larry Coutinho - Lary.Coutinho@terra.com.br
Publicado em 04/11/2009 Caro Pedro, a felicidade custa tão pouco, é só chutar uma tampinhas,..... rodar um pneu usado,dar um abafa numas figurinhas, empinar uma pipa, rodar um pião....grande abraço,Beira Enviado por Jose Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
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