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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Artigo: Um imigrante do tempo Autor(a): Domingos Ricardo Chiappetta - Conheça esse autor
História publicada em 05/12/2008

Um imigrante do tempo: O Brás de hoje se encontra com o Braz de ontem nas lembranças de quem nasceu e viveu no lugar

Por Érica Teruel Guerra

Em um dia ensolarado de agosto, Seu Domingos Ricardo Chiappetta foi surpreendido por um convite: retornar ao lugar onde nasceu. O que era para ser apenas uma entrevista em seu escritório se transformou em uma viagem no tempo: um passeio pelos locais em que vivera quando jovem. Sexagenário, Seu Domingos cresceu em um dos bairros mais cosmopolitas de São Paulo: o Brás, ou "Braz com z", como gosta de dizer. Seus avós maternos, Francisco Paulo e Maria Forte, italianos, casaram-se em um navio a caminho do Brasil. Abriram, na Rua Jairo Góes, travessa da Avenida Rangel Pestana, a cantina Adega do Braz, onde Seu Domingos, ou Ricardo, como era mais conhecido, cresceu, em meio ao cheiro da massa e do molho tipicamente calabreses.

Mudou-se em 1982 e, desde então, poucas vezes visitou a região. Exceto quando sua mãe faleceu, pois a missa de sua morte foi realizada na Matriz do Bom Jesus do Brás, igreja que gostava de freqüentar. Entrar novamente naquele templo, sobretudo para homenagear a mãe, não foi fácil para Seu Domingos. As paredes estavam descascadas, os vitrais quebrados, e por trás das redes que indicavam uma reforma parada, apenas sombras do que foi um local majestoso, lugar de encontros religiosos e, claro, sociais.

No local que abrigava a cantina dos avós, na Rua Jairo Góes, hoje está localizada uma confecção de plástico. Não há vestígio das portas de madeira, do chão de tacos originais do antigo restaurante. Tudo mudou. Seu Domingos se perde ao perceber a nova face da rua: os tons de cinza predominam. E, dentro das antigas casas que restaram, agora homens de olhos duros operam máquinas e encaram com estranhamento o olhar intrigado daquele que, por vezes, lamenta o que vê. Seu Domingos aponta o que hoje é um cortiço. "Ali costumava viver uma família muito rica." Seus olhos estão marejados, e mais, assustados.

Ainda na Rangel Pestana, hoje rua do comércio de couro, Seu Domingos entra em um prédio residencial. Pergunta ao porteiro se Dona Hilda ainda mora ali. O homem confirma, mas se recusa a chamá-la. "Eu só posso acordá-la à 1 [da tarde]". Seu Domingos insiste. Tem certeza de que a senhora vai atendê-lo. "Diga que é o Ricardo, o 'Nenê', filho da Lúcia." Hilda Tropea, quando abre a porta de seu apartamento, recebe Seu Domingos com exclamações. Era a melhor amiga de sua mãe. Morou no Brás toda a sua vida, e hoje, sozinha em um bairro transmutado, não coloca sombra de dúvida no que diz: "Não me mudaria daqui". Aos 86 anos, Dona Nena, como é conhecida, recorda os carnavais do começo do século. As cadeiras na calçada, os carros do corso, o chão que não se podia ver de tanto confete e serpentina. Quando se despedem, Dona Hilda e Seu Domingos se abraçam e as exclamações, com um vestígio de sotaque italiano, continuam. "Ê, Nenê, vê se dá notícias da tua gente, hein!".

O colégio, as meninas, o futebol

Quando entra na escola onde fez o primário, o Grupo Escolar Romão Puiggari, Seu Domingos se emociona. O prédio é um dos únicos que se mantêm conservados no bairro. As portas são as mesmas e o chão, de ladrilho, ainda é colorido. Mas muita coisa mudou. O pátio da escola diminuiu: hoje dá espaço a uma unidade da Fundação Casa (antiga Febem); no centro, a marca do alicerce deixa ver que havia uma separação entre meninos e meninas. Na sala também. Eram garotos de um lado, garotas do outro. Seu Domingos não tinha medo do castigo da época: "Até que não era ruim: quem fazia bagunça tinha que sentar com uma menina". A professora nem se virava. "'Ricardo, pode sair daí e sentar com a Beatriz.' Eu lembro dos nomes delas todas.".

Ele observa, quieto, os estudantes da 1ª série, que seguem em fila pelas escadas. "No meu tempo, era camisa branca, paletó, calça curta, meia até os joelhos.". E ai dele se chegasse em casa com as meias sujas. "Eu tirava as meias, jogava futebol, e depois as colocava de novo." A bola de futebol era improvisada. Para montá-la, os meninos pegavam as meias velhas das avós. E também na hora de torcer, Seu Domingos seguia a tradição italiana: torcia para o Palestra Itália, ou Palmeiras, enquanto os espanhóis, da Rua Piratininga, eram corintianos. Aos dez anos, subiu no carro de bombeiros para comemorar o título mundial do time, cujos jogadores vieram do Rio de Janeiro de trem e desembarcaram na Estação do Norte, onde hoje se localiza a Estação Roosevelt.

Mas o Brás mudou. E Seu Domingos também mudou. Vieram a adolescência, os passeios aos tantos cinemas e teatros que havia no bairro, os namoros. Vieram os nordestinos, que desembarcavam na Estação do Norte e por ali ficavam, começando a trabalhar em um ainda insípido comércio de tecidos. Dona Thaís desposou Seu Domingos. Vieram as filhas. O prefeito Adhemar de Barros construiu a ponte sobre a linha do trem e acabou com as famosas porteiras, que serviam de gangorra para os meninos do bairro. Veio o metrô. Centenas de famílias tiveram suas casas desapropriadas e mudaram-se.

A cantina Adega do Brás teve de ser fechada. Seu Domingos se formou em Direito. O bairro se consolidou no comércio de tecidos, couro, roupas e sapatos. A maior parte dos estabelecimentos pertence a nordestinos e a coreanos. Bolivianos trabalham por remuneração mínima. Mas algo não mudou no Brás: de segunda a segunda, o bairro continua recebendo gente do Brasil e do mundo. E, naquela quinta-feira ensolarada, recebeu um imigrante diferente: o menino Ricardo.

e-mail do autor: domingoschiappetta@ig.com.br

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Publicado em 18/12/2008 MEUS PARABENS, DOM CHIAPETTA, SINTO-ME ORGULHOSO DE PODER "LER" O QUE O SR. "SENTE", DIZEM QUE NÃO SE VIVE DO PASSADO, MAS DESCULPEM-ME QUEM MOROU NO BRAZ, "SÓ TEM PRESENTE E FUTURO, PORQUE TEVE UM MARAVILHOSO E INESQUECIVEL PASSADO".
TANTI AUGURI!
Enviado por FORTUNATO MONTONE - fortunatomontone@uol.com.br
Publicado em 10/12/2008 É sempre gostoso voltar ao passado com textos sobre o nosso querido Brás..Morei bem proximo ao Romao Pulgari mas fiz meu curso primário no Eduardo Carlos Pereira que fica na Rua da Moóca, pois nasci na Carneiro Leao. Saudades desses locais citados, e como me lembro da Adega do Brás, da R.Monteiro, etc.etc. PARABÉNS sr Domingos Enviado por Durval - dtirol@terra.com.br
Publicado em 06/12/2008 Caro Chiappetta,
imagino qual não foi a sua emoção ao entrar novamente no nossa velho Romão Puiggari. Penso que antes de subir as escadarias internas voce deve ter dado uma olhada para ver se encontrava o Seu Hugo, ou quem sabe a Dona Aurélia, saudosa professora, ou a dona Tereza. Penso ainda que voce deve ter perguntado se no pavimento onde tomavamos o lanche ainda existiam os gabinetes dentários, onde sempre nos davam amostras do creme dental kolinos.
E quem sabe, ainda, se voce não pensou em atravessar a Rangel Pestana por baixo do tunel, sentindo aquele cheiro de xixi velho e vendo as paredes de ladrilhos brancos já bem castigados pelo tempo...Mas de uma coisa eu tenho certeza.
_Embora voce não deva ter visto nada disso, voce sentiu na alma a atmosféra do antigo Braz, voce sentiu no ar o cheiro do gazometro, voce ouviu na imaginação alguem tocando na sanfona o Piscatore`puzzilecco ou o Vieni sul mar, e quase deve ter chorado de saudades ao lembrar que bem em frente ao romão, ficava uma loja com grandes vitrines de tecidos. o R.Monteiro.
tanti bacci paesá
roque
Enviado por roque vasto - roquevasto@itelefonica.com.br
Publicado em 05/12/2008 Domingos, infelizmente estou afastado dos "comentários" TEMPORARIAMENTE, por problemas de saúde. Li seu texto e eu, com "brazeiro" senti orgulho. Parabens.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 05/12/2008 Ricardo, toda vez que leio algo nostálgico sobre
o seu querido Braz (com Z), recordo-me da canção
que meu pai cantava. ...lembrar deixe me lembrar, meus tempos de rapaz no Braz... Parabéns.
Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 05/12/2008 Um belo encontro do passado e presente, e um emocionante reencontro entre as lembrancas do menino Ricardo de ontem e o Sr Domingos de hoje. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 05/12/2008 Domingos,quanta beleza e serenidade no teu texto. Meus parabéns! Infelizmente conehço pouco o Brás, mas tenho um imenso respeito pelas tradições que guarda e pela forte presença imigrante. Um grande abraço. Belíssimo texto. Vera Moratta. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 05/12/2008 Belíssima sua história.Muito obrigado por me remeter ao passado. Parabéns,Abs.Rubens Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 04/12/2008 O velho Bras e suas tradições. falar mais o que? Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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