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Categoria - Outras histórias Recordações de um aluno interno do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, 1947 Autor(a): Raquel Quirino Piñas - Conheça esse autor
História publicada em 01/12/2008
"Querida vovozinha,

Escrevo-lhe hoje, sábado, porque o estudo da noite é livre. Aproveito a folga para contar à senhora a minha vida no Colégio Arquidiocesano de São Paulo.

Como a senhora sabe, estou na divisão dos menores. O Irmão regente não está para brincadeiras, mas é muito bonzinho. Eu sou chaveiro. Abro a porta do estudo. É bom porque assim não devo andar na fila.

O pior é levantar cedo: quinze para seis. Porém, eu o faço com gosto, porque devo estudar muito para os exames que aí vêm. Tomo banho morno e escovo os dentes como a senhora mandou.

Depois temos a missa. Gosto muito da capela. Amanhã vou comungar, e rezarei para todos os de casa. A senhora sabe que sou Cruzado: tenho uma bonita fita amarela. Durante a missa vou cantar junto ao órgão.

O café é logo depois. Acabei o bolo que a senhora mandou. Distribuí para todos os da mesa, pois o Irmão da Cruzada diz que se é mais feliz quando se agrada aos outros.

Ontem tivemos ginástica. Temos três vezes por semana. É formidável. O instrutor inventa cada brincadeira, e gosto muito. Estou ficando grande. Já tenho um metro e 35 e peso 28 quilos. Medimos outro dia na enfermaria.

Para o ano, quero ver se o Irmão regente me põe no 1º Quadro de futebol. Eu jogo no 2º.

Hoje fiz uma composição. Descrevi o dia de anos do Juquinha. Como vai ele? Não esqueça de vir me buscar para a festa deste ano. Talvez o Irmão reitor deixe.

Na aula de geografia é que não tive sorte. A composição não me deixou tempo, e não soube mostrar o trópico de Capricórnio. Agora sei. No recreio do almoço tive que estudar a lição. Foi bom porque choveu, e não houve jogo.

Quinta-feira passada dei uma volta pelo colégio. Foi quando voltava da enfermaria. Passei junto ao laboratório. O pessoal do 3º colegial fazia experiências. Mais tarde também farei.

Ao lado é o museu. É muito gozado. Tem bichos bonitos e caveiras muito feias. Entrei na biblioteca do Irmão Amâncio. Ele gosta de mim porque foi professor do papai. Eu jogo também pingue-pongue e bilhar japonês. As outras divisões têm, de verdade, com bolas.

Também estudo piano. Ontem levei um pito do mestre porque estava tocando com um dedo só.

Já contei para a senhora como gosto do cinema do colégio. Temos todas as 4as feiras. Também temos teatro.

Há quinze dias tivemos mágica. Eu fui ao palco e segurei um chapéu em que o mágico fez um lenço botar meia dúzia de ovos.

Adeus, vovó. Já bateu para a janta. São 7 horas. Sonharei com o Juquinha. Para o ano ele estará aqui comigo, se Deus quiser.

Um beijinho, de seu querido Carlinhos."


Essa carta foi publicada na revista Ecos, do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, de 1947.

Para ver fotos históricas no colégio acesse a página:
www.marista.org.br/memorialarqui

e-mail do autor: memorialarqui@marista.org.br E-mail: memorialarqui@marista.org.br
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Publicado em 25/02/2010 Tanto o texto da carta como as fotos são muito bonitos. A carta revela o alto nível de estudo então existente no Colégio. Enviado por Ir. S. A. Ferrarini - irferrarini@gmail.com
Publicado em 17/11/2009 Que maravilha de história, que ampliou mais nossos conhecimentos. Tenho dois sobrinhos que estudam nessa escola, que hoje se localiza á Av. Domingos de Moraes. Que belíssima construção, e no Natal, que belos enfeites.
Parabéns. Niderce Teresa
Enviado por Niderce Teresa - niderceteresa@bol.com.br
Publicado em 23/10/2009 carlos: somos da mesma memoravel época e possivelmente juntos nos "menores" do irmão Renato.Fiquei de 44 a 50 e tenho felizes recordações. Gostei de ler sua carta. Um abraço. Enviado por italo labate - italo@webrazil.com.br
Publicado em 13/03/2009 Estudei no Arqui nos anos de 1962 a 1964, interno, vindo de Maringá, PR, do Arqui mudei-me para o Rio de Janeiro, tentei Medicina, Engenharia e acabei Advogado, profissão que exerço há mais de 30 anos, e sou muito feliz com ela. Lembro-me sempre do Arqui, onde aprendi muito, fui secretário do grêmio dos alunos a baterista em um conjunto que formamos quando na 2ª série do científico; quando posso vou visitá-lo ainda hoje, já com 62 anos, para recordar os bons momentos que lá passei. Enviado por Tarcisio Queiroz Cerqueira - tarcisio@tarcisio.adv.br
Publicado em 03/12/2008 Releitura de sessenta anos passados, que maravilha. Parabens, Raquel.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 03/12/2008 Raquel,tive um primo que ficou por alguns anos no Arqui era do interior,quando era col.interno,tive um professor de português que lecinava no meu colégio,era "fera",marcava-me direto,na sala de aula,agradeço muito a ele o que consegui aprender,arrependo-me de não ter dado-lhe mais ouvido,afinal era um prof.de português com letras "MAIÚSCULAS".
Depois de alguns anos conheci o Prof. Hudson,prof. de Ed.Fisíca,aprendi muito com ele nos acampamentos pois ele foi um dos pioneiros em acampamentos em SAMPA,fui monitor,coordenador de alguns acampamentos em SAMPA,até que o Prof.Hdson,chegou a ser o diretor do Colégio Arquidiocesano,depois de muitos anos dedicados a esse lindo Colégio.
Inclusive aproveitando mando um abração.
Vilton Giglio
Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio@hotmail.com
Publicado em 03/12/2008 Olá a todos.
Só um esclarecimento, não existe mais internato no Colégio Marista Arquidiocesano, desde 1968.

Da sua fundação em 1858 até a década de 60, o internato ainda era um modelo muito comum em escolas. Por muitas décadas foram poucos os colégios existentes em regiões mais afastadas, o Arqui recebia então alunos de todo o Brasil.

Há 40 anos os Irmãos acreditaram que esse modelo não era mais necessário, fecharam o internato e cinco anos depois, em 1972, foram aceitas as primeiras meninas e as crianças de educação infantil.

Esse ano o Arqui completou 150 anos de fundação e 100 anos de direção dos Irmãos Maristas. Com muita história partilhada com a cidade de São Paulo e a educação no Brasil.

um abraço a todos
Enviado por Raquel - memorialarqui@marista.org.br
Publicado em 03/12/2008 Sr. Mario

Adorei sua história!O campão de areia infelizmente enão existe mais. Mas ainda está forte na recordação dos antigos alunos que deixavam sangue, suor e lágrimas, em acirradas partidas. Os mais antigos exibiam orgulhosos o destintivo dos times "Esperança" formado pelo menores, e "Progresso" dos maiores. Entre no site indicado após o texto. Existem muitas fotografias de futebol de décadas passadas. Espero que traga outras belas recordações.

um abraço
Enviado por Raquel Quirino Piñas - memorialarqui@marista.org.br
Publicado em 02/12/2008 Conheço pessoas que estudaram no Arquidiocesano na década de 70 e certa vez tive a oportunidade de conhecê-lo por dentro. Realmente é muito bonito! Contudo, tenho uma opinião formada a respeito de se estudar num internato, seja ele qual for. São os pais que levam, não é a criança quem escolhe!Acredito que boa parte desta atitude, esteja na insegurança ou falta de preparo para educação dos filhos. Para mim, educação e bom comportamento vem de berço! Não estou aqui, de forma alguma, desmerecendo os conceitos que os internatos passam para seus alunos; o que eu quero dizer que este tipo de educação "imposta" pode ser uma faca de 2 gumes. Estas pessoas que conheci, depois que sairam do internato, tornaram-se jovens um tanto rebeldes, jogando um balde de água fria na expectativa dos pais que acreditavam que eles sairiam de lá "certinhos". Eu sempre estudei em escola pública, meus pais me deram orientação para a vida. Não trocaria por nada! Enviado por Erta Tamberg - ertatamberg@hotmail.com
Publicado em 01/12/2008 Passo sempre pela Rua Domingos de Moraes de fronte ao colegio Arquidiocezano, ele é muito bonito por fora,e sempre tive curiosidade em ve-lo por dentro. A unica vez que entrei portão a dentro foi para jogar futebol contra o time de lá. Foi em 1962, um campo ao lado do predio,todo de terra amarelada, não tinha grama nem nas laterais coisa comum em campo de terra. Perdemos feio. Tomei 6 gols e me lembro até hoje do cara que marcou 3 gols em mim. O nome dele era França. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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