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Categoria - Outras histórias Rotina de peão Autor(a): Jayro Eduardo Xavier - Conheça esse autor
História publicada em 05/02/2008

19 de janeiro de 1955 - comecei a trabalhar na Real Transportes Aéreos, em Congonhas, na função de estafeta. Mais tarde essa função veio a ganhar o nome de office-boy. Seis dias depois, no aniversário da cidade, foi inaugurado o salão principal do aeroporto, o qual continha restaurante 5 estrelas e salão de baile. Embora o trabalho exigisse muita movimentação na entrega e coleta de correspondência entre departamentos e filiais, sempre sobrava um tempinho para me enfiar na cabine de um Douglas DC-3, ligar a bateria e o rádio e fazer testes de fonia com a torre de controle. Engolindo o almoço fornecido pelo SAPS* em menos de 10 minutos, eu gastava o resto do tempo para, com um manual de operações na mão, fuçar na cabine de um C-47. O deslocamento de casa para o trabalho e do trabalho para casa é que era triste. Eu tomava o ônibus verde do Emílio Guerra da linha Vila das Belezas para Santo Amaro. Como estava no meio do trajeto, eu me pendurava na porta até Santo Amaro. Ali ia para o ponto inicial da linha 103. De Santo Amaro para o centro de São Paulo tínhamos apenas três opções: o ônibus 103, via aeroporto de Congonhas, o ônibus 79, via Avenida Santo Amaro e, por último, o bonde 101. Em 1956 eu queria fazer o curso de piloto e, antes de qualquer coisa, precisava de tempo para voar. Pedi a meu chefe um regime de 6 horas em 6 dias da semana. Ele respondeu que somente o comandante Linneu Gomes, o presidente, poderia autorizar. Procurei Dona Wanda, a secretária do comandante Linneu, expliquei-lhe minha pretensão e ela prazerosamente me introduziu na sala do chefe. Ele ouviu o que eu tinha a dizer, sorriu e disse-me: "Peça a seu chefe para falar comigo". Daí em diante passei a acordar às 5 da manhã, chegar à Real às 7, sair às 13 e pegar o ônibus da linha 113, descer no Anhangabaú, comer um sanduíche de pernil bem gordo na esquina da Avenida São João, pegar o bonde 43 no Largo de São Bento, descer na Ponte Pequena, atravessar a várzea onde hoje está o Parque Anhembi, assinar a lista de presença no Aeroclube de São Paulo, voar das 14:30h às 15:30h e depois pegar o bonde 43 para o Largo de São Bento, assistir aula de inglês no Yázigi da Rua Líbero Badaró, voltar ao Largo de São Bento, pegar o bonde 43, descer na Ponte Pequena, atravessar a várzea, comer um sanduíche de filé mignon no bar do Aeroclube, assistir aulas teóricas das 20h00 às 22h00, pegar o bonde 43 e no Anhangabaú pegar o ônibus 79 para Santo Amaro onde, na rodoviária que existia atrás da igreja, pegava o ônibus Vila das Belezas, chegando em casa por volta de uma hora da madrugada. Que bom que essa rotina era só nas terças, quintas, sextas e domingos. Nos outros dias eu saía do trabalho às 13 horas direto para casa. A linha 103 era extremamente irregular com intervalos entre ônibus que variavam de meia hora a duas horas. O jeito era esperar o ônibus no bar Santos Dumont que ficava onde hoje está a agência do Bradesco em frente ao aeroporto. Muitos artistas avessos a badalações e apreciadores de uma cachaça esperavam ali a hora de embarcar (Dom Cicillo, concessionário do restaurante do aeroporto, não servia pinga. Anos mais tarde convencemo-lo a ter cachaça para servir a estrangeiros em trânsito). Ali no bar Santos Dumont conheci Adoniran Barbosa e Ângela Maria. Nós, peões, ficávamos atentos à aproximação do ônibus e quando o víamos corríamos para o ponto. Ao chegar em Santo Amaro íamos para a rodoviária. A única coisa desagradável era que, enquanto estávamos de pé na fila do ônibus Vila das Belezas na rodoviária de Santo Amaro, tínhamos que ouvir pelos alto falantes o Programa Manoel de Nóbrega e um tal de "Peru que Fala" que, mais tarde, copiando as Cestas de Natal Amaral, criou o Baú da Felicidade. A despeito do sistema de som, guardo boas lembranças daquela rodoviária, em especial do Toninho Sapateiro, um anão dotado de forte personalidade. Não sei se a idade me deixou preguiçoso, mas achava menos estafante fazer tudo aquilo em transporte público do que fazer, hoje, em meu automóvel.
* SAPS - Serviço de Alimentação Pública e Social, cujo restaurante e cozinha ficavam nos baixos do viaduto Santa Ifigênia. A comida que eles forneciam no interior do estado seria considerada como "lavagem".

e-mail do autor: jayro.eduardo@uol.com.br

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Publicado em 06/01/2013 Foi com muinta alegria e saudades que li suas histórias,que eu recordei, pois quando trabalhamos na GLORIOSA VARIG, em CGHTV ou almoçavamos no sai duro restaurante da VARIG ou algumas vezes no Tio Pepe ,enfrente ao aroporto de Congonhas.
Era muinto divertido .
Aguardo seu ctc.abs.
Enviado por Antonio Jorge Filho - jorge@panrotas.com.br
Publicado em 22/10/2010 Jayro, que maravilha de história!
Fiquei muito feliz em encontrá-lo. Viva a Internet. lembra-se de mim? Fui seu funcionário do depto de cargas da Vasp em 1976.
Entre em contato.
Abraços
Enviado por Marco Fondora - marco.fondora@terra.com.br
Publicado em 05/09/2008 Em 1955 eu era diretor de Escola de Pilotos da Real e formei mais de 100 aviadores, durante os anos em que a escola funcionou.
Jairo, quero me lembrar de você e creio que você tambem me conheceu.
Vi aqui msgs do Lineu Neto, foi companheiro meu na Transbrasil e constatei que ele vôa na TAM, lá tambem voa meu neto, Co piloto Cassio Ruiz.
Espero notícias dos que tiverem conhecimento desta minha humilde mensagem para você.
Jairo, aqui vai o meu abraço. Moacyr Ruiz
Enviado por Moacyr Ruiz - mbruiz@terra.com.br
Publicado em 05/09/2008 Em 1955 eu era diretor de Escola de Pilotos da Real e formei mais de 100 aviadores, durante os anos em que a escola funcionou.
Jairo, quero me lembrar de você e creio que você tambem me conheceu.
Vi aqui msgs do Lineu Neto, foi companheiro meu na Transbrasil e constatei que ele vôa na TAM, lá tambem voa meu neto, Co piloto Cassio Ruiz.
Espero notícias dos que tiverem conhecimento desta minha humilde mensagem para você.
Jairo, aqui vai o meu abraço. Moacyr Ruiz
Enviado por Moacyr Ruiz - mbruiz@terra.com.br
Publicado em 28/06/2008 Sr. Jairo se puder me mande um email.
Cmte. Linneu Gomes (neto) Transbrasil, OceanAir, Tam. 9988-4882/SP
Enviado por Cmte. Linneu Gomes (neto) 2008 - linneugomes@globo.com
Publicado em 08/02/2008 Jairo. Que bela rotina, em? Penso que tudo aquilo valeu a pena. O resultado de tudo o que passou você não nos informou. Como você outros peões, também se deram bem. Modestos nordestinos que por aqui vieram e que de sol a sol empurraram carrinhos, de areia e cimento também se deram bem.Tudo é fruto da persistência, do ser humano. O velho andarilho aqui, se lembrou, graças a você, da localização exata do SAPS - e também do significado do seu prefixo.(Serviço de Alimentação Pública e Social). A vida é assim. Vivendo e aprendendo. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 06/02/2008 O velho SAPS...lembro-me de sua estrutura cinzenta no Anhangabaú, mas nunca comi lá. Graças a Deus, creio ! Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 05/02/2008 Jayro esperava algo sobre a sua carreira e vivência no Congonhas e "adjacências". O empresa Real depois foi incorporada a outra empresa não? Mas diga: falta acrescentar algo mais, como foi sua carreira de piloto? Quanto tempo de serviço, horas de vôo, data da aposentadoria se é que já estas aposentado e outros detalhes mais. Ficaremos no aguardo, ah gostei de teres mencionado a pinga, abraços Clesio. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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