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Categoria - Outras histórias Um professor em São Paulo Autor(a): Rogério Duarte Fernandes dos Passos - Conheça esse autor
História publicada em 20/01/2008
Tenho ainda muito vivas as lembranças de quando lecionei em São Paulo, no ano de 2005. Certamente que aquele foi um período de grande enriquecimento profissional, no qual agreguei valores importantes em minha trajetória de vida.
Àquela época – assim como hoje –, era preciso acordar muito cedo, especialmente por dois motivos. Primeiro, porque, para quem que como eu vinha do Interior, o trânsito já era bastante intenso na parte da manhã, com o congestionamento se formando na saída tanto da Rodovia Anhangüera quanto da Rodovia dos Bandeirantes para se atingir a Marginal do Rio Tietê, já nos limites da cidade de São Paulo. E, segundo, porque tínhamos o rodízio de veículos, que durava das 7:00 às 10:00h, retornando no período entre 17:00 e 20:00h.
Se estivesse de carro, já na Marginal Tietê, ficava atento às saídas das Pontes Júlio de Mesquita e Limão, para adentrar ao sentido do bairro Barra Funda e chegar ao Campus Memorial do Centro Universitário Nove de Julho (UNINOVE), local de trabalho. Nas imediações, as Avenidas Auro Soares de Moura Andrade, Marquês de São Vicente, Antarctica, Francisco Matarazzo e a Alameda Olga, já apresentavam um trânsito lento.
O curso de Direito – no qual lecionava – tinha a vibrante direção do Prof. Dr. Carlos Eduardo de Abreu Boucault, e contava com alunos de todas as regiões da cidade e também de municípios próximos. Considerando que o Campus Memorial estava na Avenida Dr. Adolfo Pinto – nº 109, bem ao lado do Memorial da América Latina e igualmente da Estação Barra Funda de Trem e Metrô, tanto de manhã quanto de noite, tínhamos nos horários de entrada um verdadeiro “formigueiro” de alunos no entorno do prédio.
Quando não ia de carro ao trabalho, desembarcava do ônibus da Viação Cometa nas imediações da Avenida Ordem e Progresso, que cruza a Marginal Tietê. Nela, seguia até a Praça Júlio de Mesquita, entrando numa rua de um único quarteirão, justamente a Rua Federação Paulista de Futebol – em que está o prédio da entidade, com a sua fachada decorada com os escudos dos clubes fundadores – e saía num terreno que ficava atrás da Estação Barra Funda, donde subia a passarela existente sobre os trilhos e igualmente saía próximo ao Memorial da América Latina, chegando ao meu destino.
Após o trabalho na parte da manhã, era preciso fazer as tarefas ordinárias de escrituração eletrônica de diário de classe e de freqüência. Em seguida, já pensava nas opções de almoço que, basicamente, concentravam-se nos estabelecimentos existentes no início da Avenida Francisco Matarazzo, sentido bairro Água Branca, onde pequenos, porém movimentados bares e lanchonetes ofereciam boas alternativas de refeição a preços acessíveis. Depois do almoço, podia-se caminhar à frente, chegando até o nº 1028 da avenida, endereço da agência dos Correios “Água Branca”, na qual, por hábito, postava cartas e cartões-postais para a família (os destinos eram Ribeirão Preto, Americana e Campinas), sendo também possível fazer nela serviço bancário. Enfim, a infra-estrutura da região era muito boa, pois tínhamos o Hipermercado Sonda, farmácias, e até mesmo o Shopping West Plaza, oferecendo opções de compras e serviços.
Anote-se que havia também uma outra opção de rotina após os afazeres e o almoço. Podia-se ir até o Parque Dr. Fernando Costa, mais conhecido por todos como o “Parque da Água Branca”, situado no nº 455 da Avenida Francisco Matarazzo. Ali se tinha um local extremamente calmo e que contrastava com a movimentada avenida de sua frente, onde inclusive se via pequenos animais e pássaros dos mais diversos. De lá era possível mudar um pouco o curso e caminhar também por ruas bonitas e arborizadas do bairro de Perdizes, como a Rua Monte Alegre, que nos levava até à PUC-SP e à sua agitação estudantil, ou então, fazendo um pouquinho mais de esforço, chegando até a Avenida Pacaembu e à Praça Charles Miller, curtindo uma brisa nas escadarias do Estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu. Se a disposição estivesse abundante, esticava-se ainda mais a caminhada, e enfrentando a íngreme subida da Rua Desembargador Paulo Passaláqua, cortava-se a Avenida Dr. Arnaldo chegando à Avenida Paulista, onde se via colegas de trabalho e alunos. Dali, andando até o Museu de Arte de São Paulo (MASP), podia-se sentar no seu vão protegido do sol pela cobertura do prédio, avistando, de um lado, a enorme paisagem e boulevard rumo a Praça Antônio Benetazzo, e de outro, a estátua em mármore do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (1672-1740), o “Anhangüera”, esculpida pelo artista italiano Luiz Brizzolara, defronte à calçada do Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido por todos como o Parque Trianon, inaugurado em 1892 e projetado pelo paisagista francês Paul Villon. Claro que na maioria das vezes, o trabalho pendente e a falta de disposição – afinal, como eu disse, era preciso acordar bem cedo – não permitiam esses passeios. Mas quando eles se concretizavam, não deixavam de trazer surpresas e alentos, como no dia em que, caminhando próximo a Rua Cardoso de Almeida – onde havia um excelente sebo para adquirir livros e discos –, na altura do Elevado Costa e Silva, o “Minhocão”, um casal de sanhaços bailava entusiasticamente, indiferente ao trânsito, à poluição e ao barulho, fazendo pequenos contornos azuis no imenso céu de São Paulo. Mencione-se que esse pedaço da cidade, em especial, era dotado de um mistério inexpugnável para os que viessem de fora: os antigos e belos imóveis da região de Perdizes e do Pacaembu pareciam esconder muita história, por onde ficava imaginando as famílias e gerações que neles viveram, enfim; quantas pessoas e suas histórias de tristeza e felicidade tinham se passado dentro deles. A isso, somavam-se lugares pitorescos que cravavam entranhas no interior das estruturas robustas da metrópole, como no que se via ao passear na Avenida Francisco Matarazzo no sentido do Minhocão, em que encontrávamos uma pequena praça, que tinha uma escadaria com uma placa indicando o singelo nome de “Rua Perdizes”, além de solitárias e inabitadas vielas próximas ao Estádio do Pacaembu, como a Viela Jaguaruba, donde atravessando a Praça Charles Miller, se chegava à Avenida Arnolfo Azevedo, bastante arborizada – verdadeiramente simpática, quase interiorana –, e não raro, com bem menos trânsito que às da redondeza, contrastando com o panorama recheado de carros que invadia os olhos e a mente.
Caso se quisesse caminhar menos, a opção mais óbvia era a de uma visita ao Memorial da América Latina. Lá era possível visitar a fantástica biblioteca com livros sobre história e conhecimento latino-americano e até mesmo acompanhar eventos diversos, como o foi numa mostra de curta-metragens oriundos de todo o continente. Também na noite do dia 16 de agosto no Memorial, assisti a uma palestra no Auditório Simon Bolívar sobre direito do trabalho proferida pelo jurista Amauri Mascaro Nascimento, que naquela ocasião, deu um humilde e curioso depoimento aos estudantes: segundo ele, na véspera de um concurso público, estando iluminado, estudou um ponto e um tema que foram objeto de questionamento na prova, em fato que em muito o ajudou.
Mencione-se igualmente como lembrança do período algumas das reuniões de trabalho no Campus Vergueiro da UNINOVE, no nº 235 da rua de mesmo nome, onde, quando se estava a pé, era possível fazer um trajeto entrecortando trechos do centro e do bairro da Liberdade. Ademais, para aqueles, como eu, que também lecionavam no Campus Vila Maria – antigo reduto político do prefeito Jânio da Silva Quadros (1917-1992) –, indo de ônibus, se conhecia o bairro de Santana a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, embarcando numa das linhas que saíam da Avenida Cruzeiro do Sul. De lá, via-se um único prédio, ainda de pé, do complexo da antiga Casa de Detenção do Carandiru – projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e implodido em 8 de dezembro de 1992 – e que foi transformado pelo governo do Estado no atual Parque da Juventude. Depois de alguns minutos de viagem, conheciam-se também as movimentadas avenidas da Vila Guilherme e as ruas sinuosas da Vila Maria alta e da Vila Maria baixa – observando suas casas antigas e igualmente cheias de história e mistério –, além de outros marcos da região, como a fábrica de itens de vidro Nadir Figueiredo, que se não estiver enganado, fica numa avenida de nome parecido, Morvan Dias de Figueiredo. Após considerável parte do trajeto do ônibus, se desembarcava na Avenida Dr. Guilherme Cotching, onde no nº 1225 também tínhamos uma agência dos Correios (agência Vila Maria), e caminhando até às imediações da Rua Guaranésia – nº 425, endereço do Campus Vila Maria, chegava-se ao trabalho, em local que nas sextas-feiras à noite, ficava praticamente intransitável em virtude das agitações e passeios promovidos pela moçada da região, que lotava bares e calçadas com muito som alto nos carros, alegria, paquera e cerveja.
Essa agitação noturna também ocorria nas proximidades do Campus Memorial nas sextas-feiras, onde, inclusive, o comércio ambulante era muito intenso. De tudo um pouco – de filmes até churros – se encontrava por ali. “Para variar”, o som alto também invadia as imediações e as salas de aula, onde no final dos semestres, os alunos iniciavam as comemorações de seus êxitos ou fracassos acadêmicos com o estouro de fogos de artifício. Mas não podemos deixar de mencionar parte da movimentação que ocorria no local na parte da manhã: diariamente mulheres desmontavam suas caixas de isopor nas calçadas e vendiam bolo, broas de milho com erva-doce, café e leite. Cheguei até a encontrar com elas excelentes pedaços de cuscuz com receita paulista.
Certamente que aquele foi um período muito difícil e de muita luta – com grandes exigências físicas e psicológicas –, no qual, porém, não deixei de perceber as agitações culturais e a beleza do momento vivido, principalmente porque a cidade de São Paulo e especialmente o Estádio do Pacaembu receberam diversos shows internacionais, como os de Avril Lavigne e Lenny Kravitz (do show dele, por exemplo, era possível ouvir algo lá na Barra Funda), seguindo-se outros, como os da banda roqueira norte-americana Pearl Jam (também no Pacaembu) e da grandiosa turnê “Vertigo” da banda irlandesa U2 (eu fui!), que aconteceu nos dias 20 e 21 de fevereiro de 2006, no Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, e que contagiou toda a cidade.
Mas... “Voltemos ao trabalho”. Após o período de aulas da noite, próximo das 22h45, ia-se embora sem a preocupação do rodízio. A preocupação, quando se estava a pé, era atravessar quase a totalidade da Avenida Ordem e Progresso o mais rápido possível para se conseguir chegar ao ponto de ônibus da Ponte do Limão, na Marginal Tietê, em tempo de dar o sinal de parada ao veículo da Viação Cometa que saía do Terminal Rodoviário de mesmo nome. Nesse deslocamento, evitava-se chegar até o Terminal Rodoviário de metrô, e, se tudo corresse bem, conseguia-se ganhar tempo embarcando no ônibus que partia de lá às 22h30. De cima da Ponte do Limão, via-se a triste cena do Rio Tietê poluído e mal-cheiroso, às vezes colorido e com brilho noturno, reluzente do luar esculpido em manchas de óleo e detergente. Também se levava alguns sustos pelo discreto – porém perceptível – passeio dos enormes ratos que moravam dentro das estruturas de concreto e ferro da ponte. Claro que quando se estava de carro, tudo era mais tranqüilo, podendo-se observar o trânsito incessante e permanente da Marginal – que em alguns trechos, recebia o nome de Avenida Embaixador Macedo Soares –, com as luzes dos automóveis não dando folga para o curso cinzento e quase infinito de asfalto. A companhia ficava pela sintonia de algumas das emissoras de rádio da cidade, por exemplo, ora a Rádio Jovem Pan AM (620 KHz), e o seu “Jornal da Noite”, ora a programação musical da Rádio Eldorado FM (92,9 MHz), com o “Lounge Eldorado”. Por fim, se avistava os prédios da Editora Abril e do jornal “O Estado de São Paulo”, e chegava-se até a saída para a Rodovia dos Bandeirantes, onde, de repente, a imagem da cidade ficava para trás num turbilhão de pontos de luzes alaranjadas... Em pouco tempo, tudo ficava mais escuro, a velocidade aumentava, e o dia terminava para, em algumas horas, começar de novo.
Se essa trajetória profissional terminou, esse caminho e essa rotina, por enquanto, permanecem inalterados e muito vivos em meus sonhos e em meu imaginário. E, para não correr o risco de que eles me deixem, resolvi (d)escrever alguma coisa do período – eu sei e vocês sabem que há muito, mas muito mais –, ciente que aos poucos, os detalhes, as percepções e as emoções que os permeiam, poderão se esvair. Dói-me saber que alguns detalhes e fatos, num determinado dia qualquer, irão morar na eternidade.

e-mail do autor: rdfdospassos@hotmail.com E-mail: rdfdospassos@hotmail.com
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Publicado em 17/03/2008 Passos, seu tour por São Paulo,parecia o filme de minha vida, só que em épocas diferentes. Tenho estreita afinidade com a zona oeste, lá passei parte da infancia e toda a adolescência. Casei-me na Capela da Puc, morei na Barra Funda, Cerqueira Cesar e meu filho estuda na Uninove. Grata por me avivar a memória, Abraços. Mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
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