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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Crônica de Domingo Autor(a): Renato Bellote - Conheça esse autor
História publicada em 22/08/2007
São Paulo é uma das maiores cidades do planeta. A metrópole de onze milhões de habitantes parece andar, literalmente, sobre rodas. Além dos milhares de ônibus que percorrem a capital diariamente, uma frota de quase seis milhões de automóveis toma conta das ruas e avenidas, gerando grandes engarrafamentos e um teste de paciência para todos aqueles que têm de enfrentar a “selva” de combustível, aço e borracha todos os dias.
Domingo parece ser o dia da redenção. Alguns saem, outros dedicam o tempo livre ao lazer – nos parques da cidade – e outros ainda ficam em casa recarregando as energias. Porém, para o antigomobilista, esse é o dia de botar o clássico na rua e ter a satisfação de dar um passeio pela cidade, chamando atenção por onde passa.
O ritual começa bem cedinho, lá pelas sete e pouco da manhã. Ao acordar e se deparar com os primeiros raios de sol, o dia já começa de forma positiva. Um café coado rapidamente e um pãozinho com manteiga engolido às pressas já bastam. Ninguém quer perder tempo.
Hora de encontrar o “possante”. Primeiro, a chave é tirada da gaveta, como um objeto de desejo. Depois, é só descer as escadas – ou elevador – ansiosamente e se deparar com a máquina, que permanece tinindo, brilhando depois da última lavagem.
Ao abrir a porta, o aroma do estofamento – de tecido ou couro – já pode ser sentido e a acomodação no banco parece ideal. O painel encara o motorista, com seus manômetros e instrumentos diversos. E logo você pensa: “Um dia perfeito”.
O próximo passo é técnico. Duas bombadas no acelerador para injetar a gasolina depois de uma semana parado. Pronto, é só colocar a chave no contato. Lá fora, um ou outro pássaro se arrisca a interromper esse momento único entre homem e máquina. A partida dá vida ao antigo propulsor. Os pistões sobem e descem, num movimento preciso. O ronco toma conta do ambiente: boxer, seis em linha, V8 ou dois tempos. O carro agradece o cuidado do dono com o funcionamento “redondo” e, alguns, com um leve balanço de carroceria. Hora de sair.
O passeio por São Paulo começa pela Avenida Vinte e Três de Maio, praticamente vazia, com o sol vindo de frente, ainda tímido. Andando devagar e sentindo o carro, dá pra notar os outros motoristas que passam olhando, curiosos. Com mais satisfação e, talvez, o som de um velho toca-fitas Roadstar ou TKR, o passeio segue adiante.
A subida da Rua Estela exige um pouco mais do motor, que não mostra sinais de cansaço. Dois quarteirões após o Colégio Bandeirantes, é hora de virar à esquerda e entrar na avenida mais famosa da cidade: a Paulista. Inaugurada em 1891, é um dos cartões-postais da capital, com seus prédios de escritórios e alguns casarões que fizeram história. O clássico passa em frente ao número 37, onde está localizada a Casa das Rosas, projetada nos anos 30 por Ramos de Azevedo e efervescente centro cultural. Os arranha-céus e a monumental sede da FIESP são refletidos pela carroceria brilhante. No MASP, a feirinha já está prestes a começar.
O retorno é feito após a passagem defronte à igreja São Luís e à Rua Haddock Lobo. O passeio continua e é hora de entrar na Augusta, famoso point dos playboys paulistanos durante as décadas de 50 e 60. Mas, calma, não vamos descê-la a “120 por hora”, como diz a canção. O paralelepípedo deu lugar ao asfalto há muitos anos, mas ela ainda tem o seu charme.
Aliás, essa é uma grande rua que tem três nomes. Depois de Augusta, chama-se Colômbia e, adiante, Europa. Essa variedade toda vai descortinando aos olhos do motorista o bairro dos Jardins, com suas mansões e concessionárias de marcas famosas, como a Porsche e a Ferrari. O motor do antigo ronca forte. Será que ele já passou por aqui? Talvez seu primeiro dono tenha vivido numa grande casa, tomada pelas plantas e poeira com a passagem dos anos.
Já próximo da Faria Lima, uma parada em frente ao edifício Dacon, construído no início da década de 80 e conhecido por todos que gostam de automóvel. Quem sabe não tem um mini-Dacon ou um vistoso SP-2 preto ainda no estoque? O tempo passa, mas as memórias permanecem intactas.
As marchas são trocadas e a cidade vai mostrando seu encanto. A Avenida Faria Lima, conhecida por concentrar barzinhos e casas noturnas, parece dormir profundamente na manhã de sol, como alguém que só quer descansar depois de uma noite agitada.
O arborizado bairro de Moema, lar de vários carros antigos, nos recebe sorridente. Os raios de sol insistem em passar pelas copas das árvores e acabam por formar um belo caminho no asfalto. Alguns semáforos e rotatórias depois, o veterano chega novamente à sua casa.
Guardado com todo carinho na garagem, ficará mais uma semana descansando. Se chover, até duas. De qualquer modo, todos devem concordar que Domingo é dia de passear de carro antigo. Então, nos vemos por aí, em alguma esquina da cidade.

e-mail do autor: 302v8@terra.com.br E-mail: 302v8@terra.com.br
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Publicado em 15/10/2010 Nos meus velhos tempos essa rua nao tinha tres nomes somente.A rua Augusta tinha cinco nomes pois comecava como Martins Fontes e depois da avenida Europa ela terminava como avenida cidade Jardim alem de Colombia e Europa.Isso nos anos 50 e 60 e nao sei se continua assim pois com o crescimento da cidade houveram muitas modificacoes .Eu estou longe de Sao Paulo a mais de 45 anos. Abracos Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 12/05/2010 ameii muito me ajudou pra caramba Enviado por bruna - brunalcoelho@hotmail.com
Publicado em 17/11/2008 Bela percepção, lirica e poetica...(Os raios de sol insistem em passar pelas copas das árvores e acabam por formar um belo caminho no asfalto)(As marchas são trocadas e a cidade vai mostrando seu encanto)
Abraços.
Enviado por Reinaldo Cabral - coregional@yahoo.com.br
Publicado em 24/01/2008 Obrigado pessoal!
O e-mail de contato mudou: renatobellote@uol.com.br

abs
Enviado por Renato Bellote - renatobellote@uol.com.br
Publicado em 23/09/2007 muito legal!!!!!!!
um texto otimo e retrata o nossos fins de semana;;;
muito bala...
Enviado por marco dias - marco.dgostoso@gmail.com
Publicado em 22/08/2007 Renato, você me fez lembrar da minha juventude quando em 1952 até 1955, trabalhei na rua Stela, nº63 (FABRICA DE PIANOS BRASIL) de propriedade do sr.Eduardo Sandoli, irmão do sr.Ferrucio Sandoli que era proprietário do Colégio Ipiranga, na rua Vergueiro (em frente à Catedral Ortodoxa) onde casei em 1955... Abraços - Flavio Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 22/08/2007 Sorte de quem só usa o "possante" para umas bandas no fim de semana ! Enviado por Luiz S.Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
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